PMESP: Pele, Osso e Desilusão: O Rosto da Dor que a Farda Esconde

Por Sandra Campos

Parei numa esquina movimentada apenas para pedir uma informação simples a um jovem soldado da Polícia Militar. O que encontrei diante de mim, contudo, partiu meu coração. Não vi apenas a farda imponente do menino que um dia sonhou em salvar o mundo; vi um olhar cansado, o rosto magro e abatido, marcado pelo que me pareceu ser o peso de uma rotina difícil. Um rapaz precocemente envelhecido, carregando o que aparentava ser uma dor silenciosa.

Em momento algum ele me falou de salário. O desabafo veio em lágrimas contidas sobre a sensação de se sentir descartável. Um jovem humilde que enfrenta tempestades, madrugadas geladas e a violência das ruas para proteger pessoas que nem conhece, muitas vezes convivendo também com a incompreensão e os julgamentos de parte da sociedade.

A partir daquela conversa, fiquei pensando nas condições enfrentadas diariamente por cabos e soldados. Na minha percepção, são profissionais que carregam grande parte do trabalho realizado nas ruas, muitas vezes sob forte pressão, enfrentando jornadas difíceis, limitações de estrutura e a cobrança permanente por resultados.

É impossível não questionar como essa rotina afeta a saúde e a dignidade de quem está diariamente exposto à violência. A pressão por resultados, as dificuldades decorrentes da falta de efetivo, as escalas desgastantes e os conflitos que podem surgir dentro de qualquer ambiente profissional merecem atenção. Mais do que números ou metas, estamos falando de pessoas.

Também me preocupa saber que tantos policiais podem enfrentar sofrimento emocional e psicológico durante a carreira. Os relatos de afastamentos por questões de saúde mental e de suicídios entre profissionais da segurança pública são um alerta que não deveria ser ignorado. Por trás de cada caso existe uma família, uma história e uma vida que precisa ser acolhida.

Perguntei àquele soldado o que fazia quando finalmente tinha uma folga. A resposta foi um golpe no peito: “Durmo quase vinte horas seguidas, dona Sandra, porque minha mente já não suporta ficar acordada”.

Aquela frase ficou comigo.

Até quando vamos olhar para esses profissionais apenas como números, fardas ou estatísticas? Não há vocação ou amor à farda que deva exigir de alguém o sacrifício da própria dignidade e da própria saúde.

É preciso falar sobre isso. É preciso ouvir quem está nas ruas. É preciso olhar para o policial como ser humano, reconhecer suas dificuldades e buscar caminhos para que aqueles que dedicam suas vidas à proteção da sociedade também tenham proteção, respeito e condições dignas para viver.

Sobre a Autora: Eu, Sandra Campos, perdi meu filho de 24 anos para o suicídio. Transformei a dor em propósito e hoje sou ativista pela vida no projeto “Não te julgo, te ajudo!”, oferecendo acolhimento e escuta amiga. Não passe por esse peso sozinho. WhatsApp: (11) 94813-7799 | Instagram: @sandracamposa_

Related Post